novathesis
12 de setembro de 2026 · Read in English

Gráfico ou tabela?

Um texto que escrevi em 2016 no blogue antigo, revisitado dez anos depois — com os gráficos redesenhados e o que hoje diria de outra maneira.

Este texto saiu em dezembro de 2016 no blogue antigo do novathesis. Dez anos depois continua a responder à pergunta que mais vezes me fazem sobre apresentação de resultados, por isso trago-o para aqui — com os gráficos redesenhados e, no fim, o que a experiência entretanto acrescentou.

A pergunta

Devo apresentar os meus dados na forma de gráfico ou de tabela?

A escolha depende do objetivo. Mas de que forma? Ao longo dos anos vi inúmeras vezes resultados apresentados em tabelas que deviam estar em gráficos. Raras vezes aconteceu o contrário.

Se o que se pretende mostrar é uma ordem de grandeza, uma variação, uma tendência, então a melhor escolha é um gráfico. Um bom gráfico omite os detalhes e ilustra com clareza a mensagem. Se, pelo contrário, os valores exatos são mesmo importantes, então a tabela é a solução.

Sugestão: tenta sempre apresentar os resultados em gráfico. Bem feitos, são normalmente mais fáceis de ler e de entender do que as tabelas.

Dez segundos com uma tabela

A tabela seguinte apresenta a distribuição da população activa portuguesa por sector de actividade, em milhares de trabalhadores. Que informação consegues extrair dela em dez segundos?

Ano Primário Secundário Terciário
1980 1121,0 1415,0 1388,0
1990 845,6 1624,6 2245,2
2000 645,2 1741,7 2654,4
2010 548,1 1327,3 3023,0

Provavelmente muito pouca.

A mesma informação em gráfico

Quatro gráficos circulares, um por década, com a repartição entre os sectores primário, secundário e terciário

Agora já se lê alguma coisa:

  • Em 1980 a distribuição estava equilibrada pelos três sectores.
  • Entre 1980 e 2010 o peso dos sectores primário e secundário diminuiu a favor do terciário.

Mas outras perguntas continuam difíceis, ou mesmo impossíveis:

  • A distribuição em 1980 não era seguramente de um terço para cada. Qual dos sectores tinha mais trabalhadores, e qual tinha menos?
  • O terciário cresceu — mas em 2010 representa o dobro de 1980?
  • E em 1990, o secundário era o dobro do primário?
  • Em termos absolutos, havia mais ou menos gente no secundário em 1980 ou em 2010?

A escolha do tipo de gráfico é que faz a diferença

Gráfico de barras agrupadas: três sectores por década, com eixo vertical em milhares de trabalhadores

Voltemos às perguntas:

  • Qual tinha mais e qual tinha menos em 1980? Do menor para o maior: primário, terciário, secundário.
  • O terciário duplicou? Pouco mais do que isso: em 1980 está visivelmente abaixo dos 1500 e em 2010 está nos 3000.
  • O secundário era o dobro do primário em 1990? Quase: pouco mais de 1600 contra pouco mais de 800.
  • Mais ou menos gente no secundário, 1980 ou 2010? Claramente menos em 2010.

Resumo: não uses gráficos circulares. As barras e as linhas são quase sempre mais fáceis de ler e mais informativas.

Barras ou linhas?

Gráfico de linhas: evolução dos três sectores entre 1980 e 2010

O gráfico de linhas responde exatamente às mesmas perguntas que o de barras, e torna as tendências mais fáceis de intuir. Mas só se deve usar quando o domínio da variável no eixo horizontal é contínuo — tempo, comprimento, área, volume. Quando esse domínio é discreto — cores, localidades, escolas — usa barras.

Dez anos depois

Quatro notas que acrescento hoje ao texto de 2016.

A terceira pergunta já tem resposta. Em 2016 escrevi que o gráfico de barras não conseguia dizer se o secundário era o dobro do primário em 1990. Conseguia — bastava ter linhas de grelha. O que o exemplo mostra afinal não é "barras melhor que circular", mas algo mais geral: um gráfico responde às perguntas para as quais tem escala. Sem eixo graduado, qualquer gráfico volta a ser uma impressão vaga.

O gráfico circular não é mau por moda. É mau porque nos obriga a comparar ângulos e áreas, e somos maus nisso. Comparar comprimentos alinhados na mesma base — barras — é a comparação em que somos melhores. É por isso que a recomendação não envelheceu.

A cor não pode ser o único código. Cerca de 8% dos homens têm alguma deficiência de visão cromática, e muitas teses ainda são impressas a preto e branco. Os gráficos aqui em cima distinguem as séries por luminosidade e não só por matiz, e cada série está identificada por legenda e por rótulo direto. Imprime o teu gráfico em tons de cinzento antes de o entregar: se deixar de se perceber, o problema não é da impressora.

Guarda os gráficos em vectorial. Um PDF ou SVG mantém-se nítido em qualquer ampliação e em qualquer impressão; um PNG ou JPEG fica pastoso para sempre. Estes gráficos são SVG — clica em qualquer um deles para veres o ficheiro original. Os de 2016 eram JPEG com 400 píxeis de largura, e é exatamente por isso que os redesenhei em vez de os copiar.

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